Escrito por Themis da Silva.
Você já parou para pensar como seria a Avenida Paulista sem o vão livre do MASP? Ou como São Paulo seria diferente sem a energia do Sesc Pompeia? A criadora dessas obras que transformaram a paisagem paulistana é uma mulher que viu na cultura brasileira uma forma de reinventar a arquitetura: Lina Bo Bardi.
Neste artigo, vamos mergulhar na trajetória dessa arquiteta ítalo-brasileira que trocou a Europa pelo Brasil e acabou se tornando uma das maiores referências da arquitetura mundial.

Do guache à arquitetura.
Achilina di Enrico Bo Bardi nasceu em 1914, em Roma. Seu interesse por arte começa muito cedo. Quando criança, ela praticava desenho e pintura junto com seu pai, que era engenheiro e artista. Usando guache e aquarela, ela gostava de retratar casas e cenas urbanas cotidianas, como festas de rua e o movimento de praças da cidade.
Lina cursou arquitetura em Roma. Naquela época, a profissão ainda era uma atividade predominantemente masculina, e ela foi uma das poucas mulheres da sua turma. Seu trabalho final de graduação foi o projeto de um “Núcleo Assistencial da Maternidade e da Infância”, para o qual se inspira no Sanatório de Paijmio, projetado por Alvar Aalto. Assim, termina o curso aos 25 anos, em 1939 – mesmo ano de início da Segunda Guerra Mundial. Logo depois, em 1940, Lina muda-se para Milão com o apoio de seu amigo e colega Carlo Pagani, que a recebe para trabalhar em seu estúdio. No período em que morou em Milão, ela colaborou com diversas revistas como ilustradora e autora de artigos; como autônoma, realizou trabalhos para o arquiteto italiano Gio Ponti. Imagine o desafio: iniciar a carreira em meio a um cenário de guerra e destruição. É provável que esse contexto tenha contribuído para forjar sua visão humanista e resiliente sobre o espaço urbano.

O Brasil como Terra Prometida
Logo após o fim da guerra, se inicia uma nova fase da vida de Lina: junto a Pietro Bardi. Pietro Bardi foi jornalista e marchand de arte. Ele trabalhou como editor de revistas e diretor de galerias de arte, o que o colocou em contato com artistas e arquitetos modernos importantes do período. Há contradições nos registros históricos com relação à forma com que o casal se conheceu. Fato é que Lina e Pietro se casaram em 1946 e, no mesmo ano, imigram para o Brasil.
A decisão de mudança para um país tão distante não foi fortuita. Naquele momento, o Brasil apresentava boas condições econômicas devido às exportações feitas durante a guerra. Outro fato importante é que a arquitetura moderna brasileira já havia sido reconhecida internacionalmente devido ao sucesso da exposição Brazil Builds (1943), em Nova York, que difundiu a qualidade do trabalho de arquitetos brasileiros como Oscar Niemeyer e Rino Levi. Além disso, era um país onde ainda não havia um mercado saturado; pelo contrário, havia amplo espaço a ser explorado no campo das artes e da arquitetura. Essas e outras condições tornavam o Brasil bastante atrativo para imigrantes.
Inicialmente, Lina e Pietro fixaram-se no Rio de Janeiro. Pietro Bardi trouxe da Itália uma considerável coleção de obras de arte, com a qual realizou uma exposição de pintura italiana antiga no palácio Gustavo Capanema. Lá, Pietro conheceu o influente empresário e político Assis Chateaubriand, que, em breve, o convida para montarem juntos o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Então, Lina e Pietro transferem-se para São Paulo e, já em 1947, realizam a primeira exposição do MASP – que, naquele momento, ainda funcionava em uma sede provisória no centro de São Paulo. Nesse período inicial, Lina também criou um estúdio de arte onde desenvolveu projetos e desenhos de mobiliário moderno e industrial. Em seguida, também criou, junto com Pietro, a revista Habitat.
Em diversas ocasiões, Lina expressou sua administração pelo Brasil, seu povo e sua cultura. Por isso, não é surpreendente que ela tenha se naturalizado brasileira relativamente pouco tempo depois de ter se estabelecido no país, em 1951.

As primeiras obras brasileiras
Em 1951 ocorreu mais um marco importante da história de Lina: a conclusão da obra da Casa de Vidro, primeira construção de Lina no Brasil. A Casa de Vidro foi a residência de Lina e Pietro durante muitos anos e localiza-se no Morumbi, em São Paulo. Atualmente, esse é um bairro predominantemente residencial, bastante ocupado por casas. Porém, na época da construção, era um bairro afastado e pouco habitado. A Casa de Vidro foi apelidada assim pelos moradores do bairro porque chamavam a atenção as suas paredes plenamente envidraçadas na área social – algo muito incomum para a época. Quando foi construída, da sala elevada sobre pilotis tinha-se uma visão panorâmica da região. Porém, se você visitá-la hoje, terá a sensação de estar dentro de mata de árvores, mesmo estando no meio da metrópole. É uma experiência única!
A segunda obra de Lina no Brasil fica próxima a Casa de Vidro: é a Casa Valéria Cirell, construída em 1958. Essa é a primeira obra de Lina que expressa claramente seu interesse pela cultura e pelas arquiteturas populares brasileiras. É uma casa simples, construída com técnicas tradicionais em alvenaria de tijolos e estrutura de madeira. O corpo da casa é cercado por varandas que, originalmente, tinham cobertura em sapé. As paredes são revestidas com pedras e cacos cerâmicos, formando mosaicos florais. Lina também dá à vegetação um papel de destaque na composição, uma vez que cria uma cobertura verde e insere algumas plantas nas fachadas da casa.

O edifício do MASP
Depois da Casa Cirell, Lina ainda constrói outras casas, como a Casa de Convidados, no mesmo terreno da Casa Cirell, e a casa do Chame-Chame, na Bahia. No entanto, o próximo projeto de Lina que ganhou mais notoriedade é o MASP (Museu de Arte Moderna de São Paulo). Os primeiros estudos de Lina começaram em 1957, mas a obra foi finalizada apenas em 1968. O edifício está situado em um local privilegiado da cidade, na Avenida Paulista, em um ponto alto, com vistas para o parque Trianon de um lado, e o vale do outro. Lina, então, adota uma solução radical e inovadora. Ela divide o museu em duas partes: uma completamente elevada, e outra semi-enterrada, com vistas para o vale. Assim, ficou completamente preservado o nível do térreo como uma praça pública, coberta pelo grande bloco suspenso do museu – que tem impressionantes 70 metros de vão livre. O MASP é considerado uma das obras mais importantes de arquitetura brasileira. Passados mais de 50 anos de sua inauguração, ainda hoje é um espaço extremamente ativo, tanto como Museu quanto como espaço público.

As transformadoras experiências na Bahia
Embora a arquiteta seja mais frequentemente lembrada pelas suas obras paulistas, a história de Lina guarda uma importante passagem pela Bahia. Após dar conferências na Escola de Belas Artes da Bahia e ser convidada para fundar e dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), Lina se transferiu para Salvador em 1958 – onde morou até 1964. Nesse período, ela desenvolveu uma de suas obras mais relevantes: o restauro do Solar do Unhão. Por iniciativa da própria Lina, que viu no lugar o seu potencial de patrimônio histórico e artístico, o Solar foi restaurado entre 1959 e 1963 e para lá foi transferido o MAM. Nessa época, a atividade de restauro ainda não estava consolidada no Brasil, o que fez de Lina uma das pioneiras nessa prática. Outros de seus trabalhos em Salvador são: o projeto para o centro histórico da cidade, a reforma do Teatro Gregório de Mattos, o projeto de restauro do conjunto de casas na Ladeira da Misericórdia (feito junto com o arquiteto Lelé), a reforma da Casa do Benin, e casa do Olodum.
Na Bahia, Lina se aproximou de importantes artistas de vanguarda, notadamente o fotógrafo Pierre Verger e o cineasta Glauber Rocha. Além dos projetos de arquitetura, Lina também realizou exposições e cenários para peças. de teatro. Essas experiências a colocaram em contato profundo com a cultura e a arte popular brasileira, transformando sua própria maneira de ver e criar a arquitetura.

O Sesc Pompeia
Reconhecida pela obra de restauro do Solar do Unhão, Lina foi indicada para o projeto do Sesc Pompeia. Esse projeto é cheio de limitantes devido às condições do terreno: havia galpões da antiga fábrica de tambores a serem preservados e, além disso, uma parte do lote não poderia ser edificada porque abaixo dela passava uma galeria de águas pluviais. Como solução, Lina mantém os galpões industriais e ali instala o teatro, áreas de convivência, a comedoria, a biblioteca e as oficinas. Já na porção restante e edificável, projeta dois edifícios totalmente em concreto, ligados por belíssimas passarelas externas. Os trabalhos de Lina para o Sesc começam em 1977 e as obras terminam em 1986. Lina atuou intensamente nas obras, acompanhando de perto a recuperação dos galpões industriais e os detalhes construtivos.
Um legado de respeito e humanidade
Lina marcou a história da arquitetura. Foi pioneira ao reconhecer o valor das culturas locais e do patrimônio histórico no Brasil. Talvez a grande lição que ela nos deixa é que a arquitetura não precisa ser somente sobre luxo ou estética pura; mas também sobre respeito. Respeito ao que já existia antes, respeito à natureza e, acima de tudo, respeito às pessoas que vão habitar e dar vida àqueles espaços.
A arquiteta faleceu em 1992, aos 77 anos. Em 2021, foi homenageada com o Leão de Ouro Especial na Bienal de Veneza pelo conjunto de sua obra — um reconhecimento tardio, mas mais do que merecido.
COMO CITAR: SILVA, Themis da. A história de Lina Bo Bardi. In: ARQUITETURA OBJETIVA. [S. l.], c2026.
REFERÊNCIAS
COMAS, Carlos Eduardo. Lina 3×2. Arqtexto, n.14 (2009), p. 146-189. Disponível em https://lume.ufrgs.br/handle/10183/29120
INSTITUTO BARDI – https://institutobardi.org.br/
OLIVEIRA, Olívia de. Lina Bo Bardi: obra construída. São Paulo: GG Brasil, 2018.
RUBINO, Silvana Barbosa. Rotas da modernidade: trajetória, campo e história na atuação de Lina Bo Bardi. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas, 2002.
VAINER, André; FERRAZ, Marcelo. Cidadela da liberdade: Lina Bo Bardi e o Sesc Pompeia. São Paulo: Sesc, 2013.

Deixe um comentário